Estar plenamente
presente é estar aberto às possibilidades de romper hábitos, mesmo os “bons
hábitos”, como aqueles que a evolução nos proporcionou, por exemplo, as
habilidades de ações reflexas do corpo em que aprendemos a confiar, liberar e
domar no Contato Improvisação. E como também os hábitos que o próprio
treinamento e prática do Contato Improvisação estabelece em nossos corpos,
movimento e percepção. O paradoxo seria: nós treinamos para ter hábitos de
melhor des-habituar; nós almejamos navegar um fluxo de movimento e comunicação
tão suave e confiável, quanto alerta e capaz de nos surpreender. Neste
workshop, a proposta é dançar em consciência intensificada a fim de segura e
aventurosamente desestabilizar os hábitos por meio dos quais nós dançamos,
percebemos e temos a experiência de sermos quem somos a cada instante.
Este workshop é uma
aplicação direta de uma pesquisa em Contato Improvisação, mente e movimento que
venho desenvolvendo desde 2006 no contexto de minha carreira artística e
acadêmica em dança. Meu interesse tem sido olhar para o Contato Improvisação na
perspectiva de estudos da cognição a fim de dirigir minha prática como
professor e dançarino para uma exploração do território subjetivo e imaginário
daqueles que dançam.
Em tal contexto, eu assumo
o Contato Improvisação como um “jogo de dança” interessado na Vertigem da queda
com suas metáforas e inferências perceptivas. A estratégia principal é
confrontar estabilidades e se arriscar para além dos territórios seguros e
habituados, tanto em termos de habilidades técnicas de movimento-dança quanto
em nossas formas usuais de perceber e ter a experiência de tais percepções, do
mundo e de nós mesmos em consequência.
Neste workshop o
convite é para dissecar exercícios e propor um treinamento de Contato
Improvisação focalizado em como o corpo e esta proposta de investigação do
movimento e dança se beneficiam de hábitos (os instintos de sobrevivência, as
ações reflexas e a economia cognitiva, por exemplo) e, ao mesmo tempo, é
sustentado o ideário de liberdade, descoberta, criação e surpresa.
E, considerando que
o maior de todos os hábitos é a “mente” que confere o sentido de sermos quem
somos, nós iremos dançar para nos aventurarmos para além dos limites habituais
da experiência de nós mesmos. Esta ideia é aplicada como mote criativo nas
aulas que, por sua vez, são conduzidas como um “processo de criação” em que são
aplicadas uma metodologia de “materialidades perceptivas” que implicam na
multiplicação dos recursos de reflexão, experiência e composição em recursos de
corpo-movimento, texto, desenho e imagem.
